O radicalismo em formação

Mais uma vez assistimos pela TV, na noite de 15/10, o quebra-quebra no Rio e em São Paulo levado a cabo pelos desordeiros mascarados conhecidos como black blocs. Nome até sugestivo para quem se especializou em quebrar o patrimônio alheio, roubar lojas, provocar incêndios e explosões, além de atacar policiais e incendiar carros da policia. Na realidade são grupos organizados que se consideram anticapitalistas e anarquistas, que atuam para contestar o Estado e que dizem proteger quaisquer manifestações da agressão policial. As autoridades estaduais e federais vinham enfrentando esse problema com muita timidez e falta de habilidade, como sempre preocupados com votos, e com o impacto que uma reação enérgica e dentro da lei poderia causar na opinião pública. A polícia vinha agindo com receio de prendê-los, e não é para menos, qualquer ato enérgico poderia ser rapidamente considerado uma agressão policial acima do limite. Vários policiais se excederam e foram afastados. Existem setores da mídia que rapidamente criticam a ação da polícia sem observar o contexto inteiro, as provocações, pedradas e pauladas recebidas. Estão sempre prontos a defender o discurso politicamente correto sem correr risco algum, mas que também não fazem absolutamente nada para ajudar a resolver a situação. Pelo contrário, fotógrafos e jornalistas ficam correndo atrás dos black blocs pelas ruas filmando e fotografando os seus atos de vandalismo. Alguns dirão corretamente que é o trabalho da imprensa, mas que infelizmente também tem servido de estímulo para que os delinquentes tenham seus momentos de pop star na imprensa nacional e internacional.

Mas não devemos criticar somente os black blocs. Há que se observar também os prováveis motivos que justificam seu surgimento. Tem sido fácil mencionar que se trata de um movimento importado da Europa organizado para provocar distúrbios e para contestar o governo, ou que sejam apenas grupos marginais. Mesmo que seja, um ou outro caso é importante que exista uma motivação que justifique tanta violência. Se observarmos com atenção a situação política, social e econômica do país não será difícil identificar ao nosso redor às possíveis causas. Assistimos diariamente, durante anos, denúncias de escândalos de corrupção política em todos os níveis do governo, mensalão, desvios constantes de vultosas verbas públicas, contratos superfaturados, salários de políticos elevadíssimos sem reciprocidade alguma para com a sociedade, elevados índices de criminalidade, assaltos, roubos e assassinatos de todos os tipos, processos judiciais que se esticam indefinidamente, impunidade por toda parte. O que acontece então? Parte da sociedade reclama de forma pacífica, como ocorreu em Junho deste ano, mas parte dela, mesmo que uma minoria reage de forma radical, completamente desiludida com a possibilidade de que o Estado possa fazer algo de útil para eles e para o país.

O mal já está feito no setor político e só nos resta continuar trabalhando para aperfeiçoar a democracia e impedir que a desordem se espalhe por toda parte. O Estado, incluído aí os poderes legislativo e judiciário, poderia enviar uma mensagem positiva se agisse com máximo rigor contra a corrupção. Se aperfeiçoasse as leis, permitindo maior celeridade aos ritos processuais e colocasse na cadeia os criminosos para que cumprissem integralmente as penas, sem exceção. Se corrigisse as distorções salariais absurdas valorizando categorias tão importantes, mas também tão desprezadas, como é o caso dos professores. Se conduzisse uma reforma política digna trazendo maior representatividade e que nos permitisse afastar políticos corruptos, praticamente sem formação alguma para ocupar cargos de altíssima importância que definem o destino do país. Tem muito serviço para ser feito. Se não fizermos algo de positivo na organização do Estado esse grupos ao estilo black bloc continuarão prosperando e se desenvolvendo. Tornar-se-ão cada vez mais agressivos e perigosos, e assim estará aberto o caminho para formação de organizações terroristas especializadas em atacar o Estado. Acham que estou exagerando? A história está recheada de exemplos de grupos radicais que se aproveitaram da injustiça, fraqueza ou omissão dos governos, principalmente os corruptos, para instalar o caos e a desordem. A violência ainda pode piorar se grupos radicais de direita decidirem se organizar para combater esses desordeiros. Conflitos de ruas foram muitos comuns no século passado, na Europa dos anos 20 e 30, principalmente na Itália e Alemanha, quando fascistas e nazistas se organizaram para combater violentamente as organizações comunistas e qualquer tipo de oposição. Se algo um pouquinho parecido com isso acontecer por aqui aonde iremos parar? Será um desastre. Com certeza será muito difícil de consertar. Já passou da hora do Estado reagir, de parar de dormir em berço esplêndido. Já passou da hora de se adotar ações construtivas com resultados de valor e justas para o conjunto da sociedade.

Raimundo Oliveira

Cientista Político e Social

Sobre Oliveira

I'm a Social Scientist interested to study and provide analysis of global relevant issues. I'm bachelor in Social Sciences at Federal Fluminense University, and also earned Logistics degree from Paulista University and postgraduate in Business Management at INPG / Castelo Branco University, Brazil. For professional contact send an email to rrsoliveira@hotmail.com
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