A Síria e o difícil caminho para reconstrução

A Síria, é um país do oriente médio de 23 milhões de habitantes e que ocupa importante posição estratégica na região. Faz fronteira com cinco países: Turquia, Iraque, Jordânia, Israel e Líbano. A Síria foi governada, desde 1971, pelo regime ditatorial dos Assad por 53 anos. Primeiro pelo pai Hafez al-Assad até o ano 2000 e depois pelo filho Bashar al- Assad até recentemente em dezembro de 2024, quando o regime foi derrubado pelo grupo insurgente Hayat Tahrir Al-Sham, mais conhecido pela sigla HTS. Ainda não se sabe se a derrubada do regime trará alguma estabilidade política ao país, que tem estado em guerra civil por cerca de 15 anos. Segundo a ONU, até 2022, aproximadamente 306 mil pessoas haviam morrido, mas outras fontes estimam que pode chegar a 500 mil. Outros 6,7 milhões de pessoas foram deslocadas internamente e 5,6 milhões de pessoas fugiram para o exterior. A maioria das cidades foram destruídas durante o conflito e a infraestrutura do país foi seriamente danificada, especialmente a agricultura e o setor petroleiro, prejudicando gravemente o abastecimento de alimentos e a infraestrutura de energia.

O HTS ainda é considerado um grupo terrorista pelos Estados Unidos, Reino Unido, União Europeia e também pela ONU, em razão de antigos laços já rompidos com o estado Islâmico, em 2013 e com a Al-Qaeda, em 2016. Embora o HTS, desde o rompimento, tenha lutado contra seus antigos aliados jihadistas, ainda existem dúvidas se a organização adotará um sistema de governo moderado e distante do radicalismo islâmico. Ser considerado uma organização terrorista impede que governos, empresas e bancos estrangeiros invistam no país. Além disso, ainda existem dúvidas sobre a capacidade do HTS impor controle a todo país. Vários grupos armados ainda estão em operação e controlam importantes regiões, havendo sério risco de que a guerra civil prossiga entre os grupos remanescentes. No norte do país, com apoio militar dos turcos, ainda opera o ENS – Exército Nacional Sírio, formado principalmente por ex-militares que se revoltaram contra o regime de Assad. No nordeste do país opera o FDS – Forças Democráticas da Síria, organização formada majoritariamente pelo povo curdo. O governo turco tem se intrometido nos assuntos internos sírios para evitar a formação de um estado nacional curdo nas suas fronteiras, uma vez que isto poderia levar a população curda que vive no leste da Turquia a buscar independência. Já o litoral da Síria é habitado pelo grupo étnico-religioso Alauíta que possui suas próprias milícias. Os alauítas formam apenas 15% da população do país e temem todos os demais grupos, já que Assad é pertencente a este grupo. Quando ele era o governante, os alauítas exerciam forte participação política e controle das forças de segurança do regime e agiam com extrema brutalidade contra seus opositores. Nas regiões mais desérticas do país, no centro e leste da Síria, ainda opera o que sobrou do estado islâmico que foi duramente combatido e enfraquecido por russos, americanos, pelos curdos, pelo antigo governo de Assad e por todos os grupos rebeldes sírios. Todo cuidado é pouco com este grupo extremamente radical.

A derrota de Assad foi um duro golpe para o regime xiita iraniano. Os iranianos investiram bilhões de dólares fornecendo armas para o exército sírio e para o Hezbollah libanês. O regime dos Aiatolás não só perdeu um importante aliado, mas também ficou geograficamente desconectado do Hezbollah para apoiá-lo militarmente. Os israelenses, que já haviam destruído quase toda infraestrutura militar e política do Hezbollah, se aproveitaram da queda de Assad e da deserção dos militares do exército sírio para destruir centenas de instalações militares, evitando assim, que caíssem em mãos de grupos armados radicais. A derrota de Assad também foi um duro golpe para os russos, que envolvidos em uma severa guerra na Ucrânia não puderam defender seu antigo aliado e agora estão com suas duas bases militares, tanto a base aérea de Hmeymim, próximo a cidade de Latakia, quanto a base naval de Tartus ameaçadas de fechamento por alguma ação do novo regime. Ahmed al-Sharaa, líder do HTS, declarou em dezembro passado que não quer que os russos deixem o país, provavelmente para ter algum apoio contra os demais grupos e contra a crescente influência turca no norte do país. A base naval de Tartus proporciona à Rússia acesso direto ao mar Mediterrâneo, facilidade para realização de exercícios navais, para estacionar navios de guerra e até acolher submarinos nucleares. A base é muito importante para apoiar as operações da Rússia na África. Sua perda traria enormes problemas logísticos as forças russas. Informes recentes dão conta de que os russos já estariam transferindo equipamentos da Síria para a Líbia, o que demonstra que eles não estão muito seguros sobre o futuro do país.

Quem saiu ganhando com tudo isso foram as potências ocidentais e Israel que assistem o enfraquecimento da presença russa e iraniana na Síria, o isolamento do Hezbollah no Líbano e a possibilidade de estabilização política da região. Se o HTS demonstrar que de fato não seguirá o caminho da radicalização islâmica, cumprir a palavra de não perseguir os diferentes grupos étnicos e religiosos e demonstrar que pode trazer estabilidade política ao país, é provável que consiga se entender com europeus e americanos, podendo assim, receber créditos externos para reconstruir a infraestrutura nacional e organizar a exportação segura de petróleo e gás, tanto da Síria quanto de países vizinhos, através dos portos sírios do mar mediterrâneo em direção a Europa. Talvez seja este o caminho para reconstrução segura do país.

Raimundo Oliveira

Cientista Social

Originalmente publicado no X: https://x.com/rrsoliveira/status/1877908478439870526

About Raimundo Oliveira

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