Viagem ao Brasil no tempo dos tupinambás

Estudar a história dos povos antigos pode se revelar fascinante, especialmente quando ela é contada pelas pessoas que a vivenciaram e registraram o que se passou para posteridade. Ainda que estes depoimentos revelem apenas uma pequenina parte do passado, seu poder de nos mostrar uma amostra do que aconteceu se revela fantástico e muito interessante. Nos faz viajar e imaginar as diferentes situações que a pessoa descreve.

O tema que apresento nesta publicação é um pequeno resumo sobre a incrível história de Hans Staden, nascido na cidade de Homberg, na atual Alemanha.  Ele fez duas viagens ao Brasil em 1548 e 1549. O livro original onde ele apresenta tudo que aconteceu foi publicado em 1557 na cidade de Marburg, em Hessen, também na Alemanha. Aqui no Brasil a segunda edição do livro foi publicada em 2006 pela editora Martin Claret sob o título: Viagem ao Brasil.

Na primeira viagem, Hans embarcou em Lisboa em um navio português na função de artilheiro com destino a Pernambuco. O comandante da embarcação, de nome Penteado, tinha objetivos comerciais no Brasil, mas também tinha ordens de atacar e apreender os navios que estivessem comerciando com os mouros brancos da Barbaria, no norte da África. Mouros brancos eram os povos muçulmanos com quem os portugueses já haviam guerreado e que eram considerados bárbaros.

Enquanto estivesse no Brasil, Penteado também deveria atacar os navios franceses que encontrasse e estivessem comerciando com os nativos, que naquela época eram chamados de selvagens. O navio estava transportando alguns criminosos que estavam sendo degredados e que seriam desembarcados e entregues as autoridades locais para aprenderem a língua dos nativos. Se sobrevivessem seriam muito úteis ao comércio e a navegação.

Hans descreve sua passagem pela ilha da Madeira, na época grande produtora de vinho e açúcar. Depois disso, antes de seguir para o Brasil, o navio seguiu para costa do Marrocos onde apreenderam um navio mouro carregado de produtos e que foi conduzido para a ilha da Madeira.

Ao chegar em Pernambuco, 84 dias depois, aportaram em Olinda, onde desembarcaram algumas mercadorias e entregaram os criminosos ao governador Duarte Coelho. Coelho enfrentava sérios problemas de segurança. Ele pediu pelo amor de Deus que os tripulantes do navio ocupassem uma localidade perto dali chamada Igaraçu, a qual estava cercada por tribos inimigas. No livro, Hans descreve como se deu o combate e como conseguiram liberar Igaraçu. No retorno para Europa passaram por uma região que chamavam Potiguares, provavelmente na atual Paraíba, ali localizaram e entraram em combate com um navio francês que conseguiu escapar, mas que durante a luta, com tiros de canhão, infringiu danos ao navio, além de matar alguns tripulantes.

Depois de 108 dias no mar chegaram aos Arquipélago dos Açores, onde encontraram e capturaram um navio pirata carregado de vinho e pão. Depois seguiram para Ilha Terceira, também nos Açores. No local onde ancoraram estavam reunidos muitos navios vindos do Novo Mundo, uns iam para Espanha e outros para Portugal. Depois de alguns dias ancorados seguiram viagem para Lisboa em companhia de quase cem navios, aonde chegaram mais ou menos em 8 de outubro de 1548. Eles haviam viajado por 16 meses. Pela quantidade de navios em deslocamento na região, ainda em meados do século XVI, dá para se perceber como as rotas com destino ao Novo Mundo já eram bem movimentadas. Isto é apenas um pequeno resumo de uma incrível viagem.

Na segunda viagem, Hans foi para Sevilha, na Espanha, ali encontrou e embarcou, também na função de artilheiro, em um dos três navios espanhóis que estavam se preparando para irem a um país chamado Rio da Prata, situado na América do Sul. A foz do Rio da Prata fica situada entre os atuais países: Uruguai e Argentina. O comandante dos navios chamava-se Don Diego de Senabria, o qual deveria ser o governador daquele país. Partiram no ano de 1549, no quarto dia depois da Páscoa. Passaram por Lisboa em razão de problemas com vento e depois seguiram para as ilhas Canárias e ancoraram em Palma; neste porto embarcaram um pouco de vinho. Seguiram viagem, mas o vento não estava bom e foram parar na costa da Guiné, onde quase naufragaram. Depois seguiram pela costa da África.

O vento continuava desfavorável o que dificultava a travessia pelo Atlântico em direção ao continente americano. Viajaram cerca de 3.700 km no sentido sul-sudeste, se afastando de seu destino, até chegarem na ilha africana de São Tomé, ilha rica na produção de açúcar e controlada pelos portugueses. Ao prosseguir viagem enfrentaram forte tempestade. O navio de Hans se perdeu dos demais. Estavam sós e ficaram quatro meses sem poder fazer a travessia oceânica, pois o vento ainda era contrário, soprava do sul. Somente em setembro, quando o vento começou a soprar do norte é que conseguiram tomar a rota sul-sudoeste para a América. Imagine uma situação dessas, vivendo em um navio pequeno, com muitas limitações e perdendo tanto tempo para se fazer a travessia.

Ao chegar a América, no caso o atual território brasileiro, então controlado pelos portugueses, procuraram se dirigir à qualquer porção de terra localizada no paralelo 28° (graus) sul que era o ponto de reencontro dos navios caso se perdessem. Esta localização nos leva ao atual município de Garopaba, ao sul da ilha de Santa Catarina. Interessante observar que pela posição do sol e com os rudimentares instrumentos de que dispunham, eles ainda assim conseguiam calcular em que posição estavam e assim encontrar portos e povoações conhecidas. Neste local eles enfrentaram terrível tempestade, quase naufragaram e foram desviados muito ao norte até chegar a baía de Paranaguá. Ali foram orientados pelos portugueses que ali viviam para seguir para o sul rumo ao paralelo 28°, quando então chegaram à ilha de Santa Catarina. Eles exploraram a região e somente três semanas depois encontraram uma das naus com quem deveriam seguir viagem. A terceira embarcação havia se perdido e dela não tiveram mais notícia. Ficaram por ali nas imediações da ilha de Santa Catarina se preparando para seguir viagem rumo sul, reabastecendo o navio com mantimentos locais. Contaram com a ajuda dos índios Carijós, com quem faziam trocas, recebiam principalmente peixes e os espanhóis por sua vez lhes forneciam anzóis e outros presentes.

Quando estavam prestes a partir perderam a maior das naus e só lhes restou o navio menor que não podia transportar a todos. Ficaram dois anos e meio na localidade, imobilizados, passando enormes dificuldades. Decidiram que uma parte do grupo seguiria por terra para Assunção, capital do atual Paraguai, e os demais seguiriam de navio rumo norte para tentar alugar outro navio dos portugueses, já que a nau pequena que lhes restara era pequena demais para a tripulação remanescente. Foi neste trajeto para se encontrar com os portugueses que a nau enfrentou forte tempestade e naufragou em Itanhaém, na costa paulista, próximo a São Vicente. A tripulação sobreviveu ao desastre e foi abrigada pelos portugueses em São Vicente. Ali tomaram conhecimento que os habitantes locais, entre eles os nativos Tupiniquins, estavam em conflito com os Tupinambás, aliados dos franceses. Sem ter como seguir viagem, Hans, que era artilheiro, aceitou a oferta dos portugueses de trabalhar para eles por quatro meses na defesa de uma fortificação próxima que protegia a cidade, situada em Bertioga; vencido este tempo renovou o contrato por mais dois anos. A partir daí é que tudo se complicou terrivelmente para Hans. Os arredores estavam sendo monitorados pelos inimigos. Hans, quando estava no mato, do lado de fora da fortificação foi atacado e ferido na perna e levado prisioneiro pelos Tupinambás. Aprisionado, ele enfrentou terríveis dificuldades. Foi espancado diversas vezes, ameaçado rotineiramente de morte e de ser devorado. As tribos do Brasil ainda estavam na pré-história, frequentemente guerreavam entre si, e boa parte delas praticavam o canibalismo.

Hans foi dado de presente a outros nativos da nação Tupinambá, também para ser devorado quando assim decidissem. Hans, que era alemão, estava sempre procurando convencê-los de que não era português, que não era inimigo deles para tentar escapar da morte. As poucas alternativas de fuga que lhe restava era embarcar em algum navio francês, já que os Tupinambás recusavam as ofertas de troca que os inimigos portugueses lhes ofereciam. Hans foi obrigado a participar de combates e caçadas, a participar de cerimônias e outras atividades, mas sempre sendo ameaçado de morte. Ele também assistiu várias execuções de prisioneiros, tanto de nativos inimigos, quanto de mestiços e portugueses capturados, que logo depois de mortos eram esquartejados, assados e devorados. Hans conseguiu escapar da morte em um navio francês, cujo comandante deu aos índios muitas facas, machados, espelhos e pentes. Toda esta provação durou cerca de 9 meses, tempo em que ficou com os Tupinambás. Hans partiu do Rio de Janeiro em um navio francês com destino a França em 31 de outubro de 1554 e chegou em 20 de fevereiro de 1555 na cidade de Honfleur na Normandia. Dali, auxiliado pelo capitão do navio e pelo governador local seguiu de navio para Dieppe, também na França, passando por Londres, na Inglaterra e depois por Antuérpia na Holanda, de onde seguiu viagem por terra para sua cidade de origem.

Para quem gosta de temas históricos recomendo ler este livro, muito interessante. Nele Hans descreve detalhes de suas viagens em sua passagem pelo Brasil. Ele descreve os costumes locais, de como os Tupinambás se alimentavam e de como faziam fogo, de como caçavam e pescavam, de como planejavam suas batalhas. Hans descreve os combates terríveis que presenciou e que eram muito comuns entre os povos que habitavam o Brasil. Enfim, Hans nos dá através de seu testemunho uma visão incrível de como era a vida no Brasil, bem no início do período colonial. Uma visão direta de sua experiência, nua e crua, sem ufanismo e fantasias e que descreve a vida dura e perigosa para quem se aventurava a viver nestas terras. Fantástico.

Raimundo Oliveira

Cientista Social

About Raimundo Oliveira

I'm a Social Scientist interested to study and provide analysis of global relevant issues. For professional contact send an email to rrsoliveira@hotmail.com
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