A China comunista e a adoção do capitalismo de estado

Uma das mudanças geopolíticas mais impactantes do século XX de consequências duradouras, sem dúvida alguma, foi a aproximação entre Estados Unidos e a República Popular da China na década de 70. A visita do presidente norte-americano Richard Nixon em 1972 foi uma importante iniciativa diplomática e estratégica que aproximou os dois países e explorou as estremecidas relações entre os dois gigantes comunistas: a União Soviética e a China.

Os dois países comunistas não estavam se entendendo bem desde meados dos anos 50. Em 1957 Mao Tsé-Tung rejeitou a proposta de Nikita Kruschev, líder máximo soviético da época, dirigida a todos os países comunistas, para que adotassem a convivência pacífica com o Ocidente capitalista, a fim de evitar os riscos de uma guerra nuclear; em 1958 os chineses rejeitaram o uso de seus portos pela marinha de guerra soviética, assim como a presença de quaisquer tropas estrangeiras em seu território; em 1959 os soviéticos cancelaram o fornecimento de tecnologia para desenvolvimento da bomba atômica chinesa e em 1960 retiraram todos os seus técnicos e especialistas do país; em 1962 os soviéticos ficaram neutros durante a curta guerra sino-indiana; em 1969 disputas territoriais entre soviéticos e chineses na região da ilha Damansky, no rio Ussuri, no extremo oriente, levou a um confronto armado grave entre as tropas dos dois países.

Quando Nixon visitou a China as relação sino-soviéticas estavam em seu ponto mais baixo. Os americanos aproveitaram a oportunidade para explorar o afastamento entre russos e chineses em meio a guerra fria vigente. Um entendimento sino-americano nos anos 60 teria sido muito difícil. A guerra da Coreia, entre 1950 e 1953, conflito em que tropas americanas e chinesas se enfrentaram, ainda era muito recente. As duas crises no estreito de Taiwan, em 1954-1955 e depois em 1958, em que tropas chinesas e taiwanesas se defrontaram em meio a disputas territoriais por ilhas controladas por Taiwan, aliada que foi firmemente apoiada pelos Estados Unidos, não facilitava uma aproximação. A visita de Nixon foi importante, pois a partir de então os chineses se mostraram mais receptivos e também usaram a aproximação como mais uma demonstração de independência em relação a Moscou. Mao não aceitava nenhum tipo de subordinação e apresentava o comunismo chinês como mais autêntico em relação ao soviético.

Em dezembro de 1975 o presidente americano Gerald R. Ford foi recebido por Mao Tse-tung em Pequim estreitando ainda mais os contatos com a liderança chinesa. Em setembro de 1976 falece Mao e em março de 1978 Deng Xiao Ping assume a posição de líder supremo da China. A partir de então o país passará por mudanças impressionantes com as reformas que foram empreendidas para aumentar o volume e a competitividade da debilitada economia chinesa. Em janeiro de 1979, o governo americano estabelece relações diplomáticas com a República Popular da China e neste mesmo mês o presidente americano Jimmy Carter recebe a visita de Deng Xiao Ping, quando então são assinados vários acordos de cooperação nas áreas de ciências, tecnologia e cultura, além de firmarem protocolos de cooperação nos domínios de educação, comércio e espaço.

Buscando atrair investimentos estrangeiros, Deng autoriza em 1982-1987 a criação de diversas Zonas Econômicas Especiais onde empresas estrangeiras podem se instalar, desde que tenham parceria com empresas chinesas. Nestas zonas foi adotada legislação específica, mais flexível, com a redução ou até mesmo a isenção de impostos. As medidas visavam atrair investimentos estrangeiros e absorver tecnologia avançada de que tanto necessitava o país. As zonas especiais romperam com o dogmatismo do partido comunista chinês que rejeitava qualquer prática capitalista. Na época a economia chinesa era muito pequena e não era capaz de sustentar e atender as imensas necessidades do povo e precisava encontrar alguma maneira de modernizar o país. A adoção do método de produção capitalista foi apenas um meio de desenvolver a economia chinesa. Não houve nenhuma alteração no regime do partido único chinês que pôde utilizar os lucros da operação para reforçar o controle político.

As zonas especiais se desenvolveram muito bem. Sua proximidade das áreas portuárias e urbanas assegurava mão de obra barata e abundante facilitando a instalação de produção industrial diversificada com foco na exportação. As grandes empresas ocidentais ali se estabeleceram, transferindo unidades produtivas inteiras para a China, que produziam para atender os mercados consumidores do restante do mundo a preços mais baratos e competitivos. O imenso mercado consumidor chinês também foi progressivamente atendido, na medida em que os trabalhadores passaram a auferir renda, possibilitando a expansão da economia de mercado as demais regiões do país. O governo chinês foi expandindo as zonas especiais para outras regiões de forma controlada, na medida em que se verificava que tudo ia bem com o projeto inicial, a fim de evitar algum impacto negativo que provocasse alguma crise imprevista no país. Resumindo, as reformas econômicas de Deng Xiaoping foram feitas de baixo para cima: primeiro as mudanças foram testadas nas zonas especiais e só depois a reforma foi implantada, gradualmente, em todo o país.

Segundo dados do banco mundial, em 1979 a economia chinesa tinha um PIB de apenas 178 bilhões de dólares. Em 2023 o PIB chinês atingiu a marca de 17,79 trilhões de dólares, maior do que todos os países da zona do euro juntos, ficando atrás apenas dos EUA com 27,36 trilhões. No gráfico a seguir, com dados obtidos do site do Banco Mundial, se pode ter uma noção do extraordinário crescimento do PIB chinês quando comparado com União Europeia, Estados Unidos e o eterno país do futuro: o estagnado Brasil.

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O partido comunista chinês ficou mais forte do que nunca. Usou a força da economia de mercado, que no caso chinês podemos denominar de capitalismo de estado, para fortalecer o regime. O país assistiu a um enorme crescimento econômico; a expansão da renda entre a população; o desenvolvimento de milhares de empresas nacionais e a retirada de milhões de pessoas da pobreza. Por fim o capitalismo se tornou uma ferramenta potente para desenvolver o país e para ampliar o poder do partido comunista para manter o controle político e ideológico do país. Quem pensou no Ocidente que instalar a economia de mercado na China seria a maneira de conseguir a abertura do sistema político, enfraquecer a força do partido comunista chinês para instalar ali um sistema democrático multipartidário, próximo do modelo ocidental, errou totalmente.

Atualmente a China é uma superpotência militar e econômica e tem se posicionado como o principal país manufatureiro e exportador mundo. Realiza investimentos de infraestrutura, mineração e industrial em várias regiões do planeta, além de buscar assegurar o fornecimento de matérias primas essenciais ao seu parque industrial. O desenvolvimento econômico possibilitou a modernização e aparelhamento das forças armadas. Os comunistas chineses utilizam sua moderna marinha de guerra para assegurar o controle do imenso mar do sul da China, construindo bases e pistas militares nas ilhas e atóis daquele mar e impedindo os demais países da região de explorarem os recursos naturais da região.

Eles não abrem mão de anexar Taiwan, a quem consideram apenas uma província rebelde que não foi conquistada durante a guerra civil e que não deveria estar sendo protegida pelos Estados Unidos. Na área dos direitos humanos, que não vai bem, reprimem com extremo rigor qualquer tipo de oposição, principalmente minorias étnicas e religiosas. Um exemplo disso é o povo Uigur, em sua maioria muçulmano, de origem turcomena, que habita o noroeste da China. Estima-se que até 1 milhão de uigures estejam internados em campos de reeducação e/ou concentração para que renunciem a sua religião e cultura e aceitem as diretrizes do partido comunista.

Este artigo é apenas um pequeno resumo sobre a China comunista. Quem poderia imaginar naquele distante 1972 no que o país viria a se tornar a ponto de desafiar o poderio militar e econômico norte-americano e europeu no planeta. Deus não dá asas a cobras, mas os países ocidentais assim o fizeram, quando decidiram fazer pesados investimentos e transferir tecnologia a um país rigidamente controlado pelo partido comunista chinês.

Raimundo Oliveira

Cientista Social

Originalmente publicado no X: https://x.com/rrsoliveira/status/1880015704973623632

About Raimundo Oliveira

I'm a Social Scientist interested to study and provide analysis of global relevant issues. For professional contact send an email to rrsoliveira@hotmail.com
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